TIRO INSTINTIVO, O TIRO POLICIAL

TIRO INSTINTIVO, O TIRO POLICIAL

28 mai, 2012

Tiro consciente, tiro instintivo, tiro reflexo

Essa expressão – tiro instintivo – dá idéia de coisa feita sem pensar. Muitos pensam que “bom” é o tiro caprichado, com pontaria preparada, o tiro consciente. Segundo estes, é aconselhável atirar “bem”; mas, não havendo condições de atirar “bem”, então o remédio é apelar para o tiro improvisado, dado de qualquer jeito, sem pensar, sujeito a erro. Essa é, para muitos, a noção de tiro instintivo: algo inferior, de má qualidade, que só se usa em situações excepcionais. Esse modo de pensar é compreensível. Quase tudo na vida obedece a essa regra: coisas feitas “a olho”, às pressas, geralmente são de má qualidade; coisas feitas de modo pensado, planejado, cuidadoso, costumam ser melhores. Mas a regra não se aplica ao caso do tiro. O chamado tiro instintivo não é, de modo nenhum, improvisado ou de qualidade inferior. Ao contrário, é mais preciso e efetivo que o tiro consciente! Por que?

 

Um Pouco de Psicologia

Antes de responder, vamos esclarecer uma coisa. O denominado tiro instintivo não é instinto. Na verdade, não passa de um conjunto de reflexos. Em psicologia há uma diferença entre instinto e reflexo. Ambos os termos designam coisa que se faz sem pensar. Mas instinto é algo que nasce com a pessoa; reflexo é coisa aprendida. Logo, o nome tiro instintivo não é cientificamente exato. Não há instinto de tiro no ser humano porque ninguém nasce com armas de fogo. Mas sem dúvida existe uma outra característica: a habilidade natural das pessoas de, sem pensar, calcular direções e distâncias de objetos, e de alcançar ou atingir esses objetos com precisão. Essa habilidade existia nos antepassados do ser humano, que usavam armas de arremesso – pedras, paus e dardos – para caçar e defender-se. Não vamos discutir se essa habilidade é instinto ou não. Isso seria assunto para psicólogos. O que interessa é que ela existe e pode ser desenvolvida com grandes possibilidades. Para maior exatidão, daqui para a frente usaremos a expressão tiro reflexo no lugar de tiro instintivo. Na prática, tanto faz: ambas designam o tiro imediato, instantâneo, sem preparação consciente.

Por que o Tiro Reflexo é Superior ao Consciente?

Quase todas as artes são aprendidas por meio do desenvolvimento de atos reflexos. Quem aprende piano, por exemplo, começa com teoria. Com dificuldade, vai associando as notas escritas no papel com as teclas e pedais do instrumento. O início é difícil porque tudo tem de ser pensado. A música não sai boa. Aos poucos as mãos e os olhos vão automatizando a leitura e a execução das notas, e o aluno deixa de pensar nelas para concentrar-se no que realmente interessa: a música. Quando as mãos e os olhos trabalham sem pensar e a mente se concentra na música, o aluno se transforma num artista. Vejamos um exemplo inverso. Um lutador de boxe enfrenta o adversário numa trama complicadíssima de golpes, esquivas, defesas e passos, sem pensar. Mas se alguém lhe pedir que, enquanto luta, pense e descreva o que faz, é provável que seja nocauteado em poucos segundos. A interferência da mente atrapalha o desempenho. Esse princípio se aplica a todas as artes e habilidades. O controle da consciência só é bom na hora de aprender. Mas depois que a coisa foi aprendida, a consciência passa a atrapalhar.

 

Quem Muito Pensa, Não Faz

Não há necessidade de “pensar” tudo o que fazemos. Ao contrário, quando pensamos, as coisas mais simples se tornam difíceis e complicadas. O nosso sistema nervoso dispõe de incontáveis mecanismos automáticos. Muitos desses mecanismos automáticos já nascem conosco. É por isso que o organismo, com toda a sua complexidade, funciona sem a intervenção do pensamento. Mas não são apenas os órgãos internos que usam esses mecanismos. Já dissemos, por exemplo, que todos temos habilidades naturais, que nossos antepassados usavam na caça e na guerra. Elas fazem parte da nossa natureza. Como não são necessárias à vida civilizada, não chegam a se desenvolver devidamente. Mas estão aí, dentro de nós. Por isso, em várias artes, o aprendizado não consiste somente em aprender coisas novas, mas também em liberar habilidades inatas, deixando que atuem naturalmente. Isso significa fazer que essas habilidades funcionem sem a interferência da consciência.

 

Ganhando o Jogo

Quando se empunha uma arma de fogo com a mente sintonizada nas instruções, num estande de tiro, com o objetivo de atingir o alvo e fazer o máximo de pontos, pratica-se o tiro consciente. Geralmente os praticantes do tiro consciente dividem sua habilidade em departamentos separados. Aprendem a atirar com perfeição, marcando o máximo de pontos. Essa é uma habilidade. Aprendem também a sacar com rapidez. Outra habilidade. Aprendem a atirar em alvos móveis ou em silhuetas humanas. Mais uma habilidade. Aprendem a posição correta das pernas. Nova habilidade. E assim por diante. O tiro, enfim, passa a ser uma soma de habilidades. Nas situações da vida real, o atirador consciente junta as várias habilidades de acordo com as circunstâncias, e assim executa sua missão. A missão será tanto melhor executada quanto mais fielmente o atirador seguir as regras aprendidas quanto à arma, à posição, ao tiro e aos alvos. O tiro reflexo é diferente. Nele não há habilidades separadas.

policiais em estande de tiros: uma prática que tem que ser corriqueira

Desde o início o aluno aprende a esquecer os alvos com círculos concêntricos e a pensar sempre e unicamente em atacantes vivos, rápidos, traiçoeiros, armados e mortíferos. Não existe a hipótese de, por exemplo, sacar rapidamente e atirar mal; ou sacar mal e atirar bem; ou ser lento e ter ótima pontaria; ou qualquer outra combinação desse tipo. Tudo é uma coisa só, e o objetivo único é neutralizar o perigo e proteger vidas. O tiro reflexo, portanto, é um todo indivisível. Tomar posição, sacar, carregar, apontar, disparar, tudo se aprende junto. Não há nenhuma habilidade separada. Tudo tem de ser feito sem pensar. E nisso está o ponto mais forte do tiro reflexo. É possível desenvolver as habilidades naturais do ser humano de modo que, no próprio ato de tomar posição, sacar e carregar a arma, os braços, as mãos e os olhos automaticamente se alinhem e focalizem precisamente o alvo. A observação da natureza ensina muito sobre esses reflexos. Basta ver, por exemplo, as fotos de um leão em três situações diferentes: calmo, acuado ou caçando. Na primeira, tem fisionomia serena. Acuado, demonstra ferocidade, dentes à mostra, rugindo com expressão de ódio e medo. Suas reações, nesse caso, são violentas e destrutivas. O leão acuado age contra si próprio, como se não “pensasse”. Mas quando caça, todo o seu corpo se concentra no ataque. Abaixa-se, rasteja no meio do capim, as narinas se dilatam e os olhos se fixam na presa. As garras permanecem recolhidas. No momento do bote, corre, salta, e no momento em que derruba a presa as garras se expõem e as presas se abrem para o golpe fatal. Tudo é feito com calma, rapidez e exatidão, apesar do tumulto. O cérebro do leão se fixa exclusivamente na presa; seu corpo, suas garras, seus dentes, tudo funciona automaticamente, para cumprir a ordem do cérebro: dominar a presa. O método Bitahon procura fazer com que o indivíduo, quando em perigo, passe imediatamente da situação de calma para a de caçador, sem passar pela reação do leão acua.

DEFINIÇÕES DE TIRO INSTINTIVO

O tiro instintivo é aquele que é disparado sem o auxílio das miras da arma. Pode ser feito usando-se a arma na altura da cintura ou dos ombros, onde o atirador está com sua atenção voltada inteiramente para o alvo e a arma é disparada como quem aponta com o dedo, instintivamente.

Trata-se de um tipo de tiro que deve ser usado em curtas distâncias, que dificultam o uso das miras.

É um tiro normalmente efetuado quando o atirador está sob pressão, em que a ameaça é próxima e iminente, sendo comum o não uso das miras, uma vez que o atirador está com sua atenção voltada para o que o ameaça.

Deve ser praticado por todos que estão preocupados em desenvolver uma eficiente forma de defesa armada.

TÉCNICAS DE TIRO INSTINTIVO

1) Sykes e Fayrbain

Técnica desenvolvida pelo sargento Willem Ewart Fayrbain, instrutor de tiro da polícia de Shangai e pelo instrutor do Exército Britânico Eric Anthony Sykes, em meados de 1910.

O método desenvolvido por Fayrbain e Sykes consiste em efetuar o disparo com uma mão empunhando a arma e levando-a até a altura do ombro, com o braço estendido, corpo reto e pernas semi-dobradas. A Arma é disparada rapidamente sem o auxílio das miras.

Essa posição é adotada com as pernas e o corpo semi-curvados, porque Fayrbain e Sykes sentiam que essa é uma reação natural do corpo em situação de ameaça iminente.

2) D.B. (Déuxième Bureau)

Técnica desenvolvida pela elite da polícia francesa, semelhante ao de Sykes e Fayrbain, sendo que a mais notável diferença é que o braço esquerdo, no caso de um atirador destro, é estendido com o dedo indicador da mão esquerda também apontando para o alvo.

A precisão do disparo pode ser maior já que ambas as mãos apontam na mesma direção.

3) F.B.I.

Técnica adotada pela polícia federal norte-americana, onde a arma é disparada à altura dos quadris com o corpo e as pernas semi-curvados e o braço esquerdo cruzado sobre o peito, na forma de “proteger” o coração.

4) Bill Jordan

O famoso policial e escritor de arma norte-americano Bill Jordan divulgou seu próprio método de tiro instintivo.

Fontes: the hunter´s Page; bitahon curso de tiro

 PALAVRAS DA CASERNA

Infelizmente hoje em dia nossa corporação não tem o foco no treinamento de tiro de sua tropa, mas que isso não nos deixe despreparados. Não é o ideal, mas temos estandes particulares no Distrito Federal, além de federações de tiro. Além dos nossos colegas da Polícia Civil e Agentes Penitenciários que possuem estandes e não hesitam em nos emprestar seus espaços para treinamento (incrível, mas nosso estande (PMDF) é bem mais inalcançável). Não deixemos de treinar por dificuldades diversas, nossa vida vale muito.

One comment

  1. Paulo Souza /

    Parabéns aos administradores da caserna por postar tão importantes informações aos nossos valorosos colegas de atividade policial.

    Paulo Souza, soldado de polícia militar do Distrito Federal e cientista da atividade policial preventiva e de repressão imediata.

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